PENSANDO POR CONTOS

DE LEITURA RÁPIDA, OS CONTOS SÃO POSSIBILIDADES DE DESFRUTAR DO PRAZER DE UMA BOA LEITURA EM POUCOS MINUTOS... Leia e comente!




A Liberdade Roubada 
(Kate Chopin) traduzido por Fernanda Graciosa Botelho





Sabendo que a sra. Mallard tinha um problema de coração, tomou-se um grande cuidado para dar-lhe a notícia, da melhor maneira possível, sobre a morte do marido.

Foi sua irmã Josephine quem lhe contou, usando frases incompletas e dicas ocultas que se revelaram por meias-palavras. O Richards, amigo de seu marido, também estava lá, perto dela. Foi ele quem recebeu a notícia, lá no jornal, sobre o desastre na ferrovia, o qual apresentava o nome de Brently Mallard no topo da lista de “mortos”. Teve tempo, apenas, de se convencer da veracidade do ocorrido por um outro telegrama e apressou-se para ser ele a dar a triste notícia à esposa do amigo.

Ela não ouviu a história como as outras mulheres: com enorme dificuldade em aceitar o que aquilo significava. Ela chorou nos braços de sua irmã, com um grande e repentino sentimento de abandono. Quando aquela chuva de lágrimas terminou, a sra. Mallard retirou-se para o quarto. Ela não quis que ninguém a seguisse.

Sentou-se numa poltrona grande e confortável que estava voltada para a janela. Afundou nela, sentindo a pressão da exaustão física que consumia o seu corpo e parecia alcançar a alma.

Ela via, na praça em frente à sua casa, árvores repletas de vida, indicando a primavera - com aquele cheiro gostoso de chuva no ar. Numa rua abaixo, um vendedor ambulante falava alto, para vender as suas mercadorias. Ela ouvia vagamente as notas de uma música que alguém cantava à distância e ouvia também vários pardais cantarolando no beiral.

Havia manchas de céu azul aqui e acolá, por entre as nuvens que haviam se encontrado. Empilhando-se umas sobre as outras no lado esquerdo da janela.

Sentou-se com a cabeça apoiada na almofada de sua poltrona, quase que imóvel. Exceto quando vinha um soluço e fazia-a mexer feito uma criança que adormecera chorando e continuava a soluçar em seus sonhos.

Ela era jovem, com um rosto angelical cujas linhas refletiam repressão e até uma certa força. Mas, agora, havia um olhar vazio em seu rosto, cujos olhos fixavam-se ao longe, numa daquelas manchas de céu azul. Não era um olhar de reflexão, mas sim, um olhar sem conteúdo.

Havia algo chegando para ela, e ela o esperava receosa. O que seria? Ela não sabia: era muito sutil e evasivo para nomear. Mas ela o sentia aproximando-se pelo céu, através do som, do cheiro e das cores que preenchiam o ar.

Agora, seu peito arfava desordenadamente. Ela estava começando a reconhecer o que se aproximava para possuí-la e, com todo o seu ser, esforçava-se para combatê-lo – tão ineficaz quanto as suas mãos finas seriam. Quando ela desistiu, seus lábios entreabertos deixaram escapar uma palavra, que foi repetida muitas vezes.

-- Livre, Livre, Livre.

O olhar vazio e aterrorizado se foi. Seus olhos tornaram-se alertas e brilhantes. Sua pulsação era rápida e seu sangue fervia, relaxando cada parte do corpo.

Ela não queria saber se aquilo era ou não uma enorme alegria que a envolvia. Com uma percepção clara e exaltada, ela descartou essa possibilidade. Ela sabia que choraria de novo quando visse aquelas mãos delicadas e generosas recolhidas em seu leito de morte, aquele rosto que nunca ficara bem com outro amor além do dela, que agora estava imóvel, pálido. Mas ela enxergava muito além daquele momento de dor; um longo período de anos que pertenceria somente a ela. Com isso, a sra. Mallard abriu os braços para dar-lhes as boas-vindas.

Não haveria mais a quem se dedicar: ela viveria somente para si. Não haveria outro desejo além do dela competindo para ser realizado, como acontece com homens e mulheres que acreditam ter o direito de impor o seu próprio desejo ao do companheiro. Tenha ocorrido o fato por boa ou má intenção, este lhe pareceu um crime como outro qualquer até mesmo naquele momento de luz.

E, ainda assim, ela o amara... algumas vezes. Freqüentemente, não. O que isso importava?! O que o amor, o maior dos mistérios, poderia valer naquele momento de auto-afirmação, que reconheceu ser o mais forte impulso de sua vida.

-- Livre! De corpo e alma, livre! – ela continuava a sussurrar.

Josephine estava ajoelhada do outro lado da porta, com os lábios grudados na fechadura, implorando para entrar.

- Louise, abra a porta! Eu lhe imploro! Abra a porta! Você vai fazer mal a você. Louise, o que você está fazendo? Pelo amor de Deus, abra a porta!

- Deixe-me! Eu não estou me fazendo nenhum mal! – Não, ela estava bebendo o elixir da vida através daquela janela aberta.

Sua imaginação corria solta sobre aqueles dias que viriam. Dias de primavera, verão... todos os dias seriam só dela. Ela pediu rápido e baixinho que sua vida fosse longa. Ontem mesmo, ela pensara, com um jogo de ombros, que sua vida poderia ser longa.

Levantou-se e abriu a porta para a sua irmã entrar, depois de tanto importunar. Havia um brilho de vitória em seu olhar e ela se portava como uma verdadeira vencedora. Ela abraçou a cintura da irmã e, juntas, desceram a escada. Richards estava esperando por elas ao término dos degraus.

Alguém estava abrindo a porta da frente com a chave principal. Era Brently Mallard, quem chegara - um pouco sujo e amassado pela viagem, carregando o seu saco de roupas e um guarda-chuva. Ele esteve longe do local do acidente e nem sabia que tinha ocorrido um. Impressionou-se com o choro convulsivo de Josephine e o movimento rápido de Richards para escondê-lo da esposa.

Mas Richards demorou muito.

Quando os médicos chegaram, falaram que ela morrera do coração, de tanta emoção.

O conto retrata o momento de epifania em que uma mulher que pensa estar abandonada devido a morte do marido se dá conta que estar abandonada significa também estar livre. Até esse momento do conto a mulher é tratada como a Sra. Marshall ou seja, "a mulher de"; após descobrir a liberdade ela passa a ser tratada pelo seu nome. Sua morte no final do conto pode parecer causada pela emoção de ver que o marido estava vivo, mas, é também causada pelo que isso significa: o marido estar vivo significa que ela acaba de perder a liberdade que tão pouco tempo a pertencera.







Viagem aos seios de Duília
Aníbal Machado




Durante mais de trinta anos, o bondezinho das dez e quinze, que descia do Silvestre, parava como um burro ensinado em frente à casinha de José maria, e ali encontrava, almoçado e pontual, o velho funcionário.
Um dia, porém, José maria faltou. O motorneiro batia a sirene. Os passageiros se impacientavam. Floripes correu aflita a avisar o patrão. Achou-o de pijama, estirado na poltrona, querendo rir.
- Seu José Maria, o senhor hoje perdeu a hora! Há muito tempo o motorneiro está a dar sinal.
- Diga-lhe que não preciso mais. A velha portuguesa não compreendeu.
- Vá, diga que não vou... que de hoje em diante não irei mais.
A criada chegou à janela, gritou o recado e o bondezinho desceu sem o seu mais antigo passageiro.
Floripes voltou ao patrão, interroga-o com o olhar.
- Não sabes que estou aposentado?
-Uê!...
- E que vai fazer agora, patrão?
- Sei lá, Floripes... sei lá!
- Mas o almoço será sempre servido à mesma hora, pois não?
- Tanto faz. pode ser às nove e meia, onze, meio-dia ou quando você quiser. Minha vida de hoje em diante vai ser um domingão sem fim... Debruçado à janela, José Maria olhava para a cidade embaixo e achava a vida triste. Saíra na véspera o decreto de aposentadoria. Trinta e seis anos
de repartição. Interrompera da noite para o dia o hábito de esperar o bondezinho, comprar o jornal da manhã, bebericar o café na avenida, e instalar-se à mesa do ministério, sisudo e calado, até as dezessete horas. Que fazer agora? Não mais informar processos, não mais preocupar-se com o nome e a cara do futuro ministro. Pela primeira vez fartava a vista no cenário de águas e montanhas que a bruma fundia. Inúmeras vezes o fizera, mas sem perceber o pão de açúcar e a baía, as ilhas e os navios, o corcovado e as praias do atlântico, sempre se interpondo entre seus olhos e a paisagem uma reminiscência molesta, lembrança de antigo aborrecimento ou de contrariedades na repartição. Se algum navio transpunha a barra e vinha crescendo para o porto no ritmo calmo da marcha, seu coração amargava-se contra o sobrinho beto que embarcara como radiotelegrafista de um navio do lóide, e nunca mais dera notícias; se o cristo do Corcovado se erguia de um pedestal de nuvens, vinha-lhe à memória aquele triste fim de tarde, lá em cima, em que pela primeira vez na vida se conduziu de maneira vergonhosa, embriagado que estava, a dizer impropérios contra a república e contra um ato injusto do "sr. ministro", até ser detido por um guarda. Aposentado agora, continuava a ligar os diferentes aspectos da natureza a acontecimentos que a deformavam.
Com os trinta e seis anos perdidos na repartição, teria perdido também  o dom de viver? Muito próximo se achava ainda desse passado para não lhe receber a influência. A manifestação de despedida fora ontem mesmo. Cobriram-lhe a mesa de flores; saudou-o em nome dos chefes de serviço o diretor mais antigo, seu ex-adversário; falou depois um dos subordinados, estudante de medicina; por último uma funcionária, a Adélia, que usava decote largo, se referiu a competência e exemplar austeridade do querido chefe de quem todos se lembrarão com saudade". Uma menina, filha do arquivista, fez-lhe entrega de uma bengala de castão de ouro, com a data e o nome e o ministro mandou um telegrama. Foi só, estava encerrada a etapa principal e maior de sua vida.
Os decênios de trabalho monótono, de "austeridade exemplar" como dizia Adélia, forjaram-lhe uma máscara fria. Atrás dela se escondeu e de si mesmo se perdera. Como fazer desaparecer-lhe os vestígios? Como se reencontrar?
Adélia não podia imaginar o que para ele representava a "exemplar austeridade". Adélia jamais saberá o que ocorria na alma do antigo chefe quando os olhos deste passavam como um relâmpago pelo colo branco de sua subordinada; talvez nem ela pressentisse. austero coisa nenhuma: desajei-tado apenas, tímido: gostaria de poder fazer o que censurava nos outros. Floripes admirava a bengala procurando decifrar os dizeres do castão de ouro.
- É o que me resta, Floripes, dos trinta e seis anos. Isso e um telegrama do ministro!
- O que me está a dizer, patrão?
- Nada, Floripes. "Ora veja! Estou livre agora, livre!... mas livre para quê?"
Ao clarear do dia seguinte escancarou a janela para a baía. Procurava sentir a manhã de sol como a deviam estar sentindo àquela hora os moradores da bela colina, mas, nada lhe diziam os barcos a vela flutuando longe, nem os castelos de nuvens que se armavam no céu. Ia experimentar a cidade, andar sem destino. e sem chapéu. A ausência do chapéu seria a primeira mudança exterior em seus hábitos, um começo de libertação. Até então, a moda lhe parecera ridícula, além de fonte de resfriados. E se envergasse uma camisa esporte? poderiam rir-se dele: a pele do pescoço perdera consistência; e a marca circular do colarinho duro lá estava, firme como uma tatuagem.
Na rua, um colega veio dizer-lhe que os jornais deram a notícia; alguns até com elogios ao velho servidor. O amigo abraçou-o e logo recuou com certo espanto: - o seu chapéu, Zé Maria?
- Ah, não uso mais!...
- Felizardo! Vai começar a gozar a vida, hein? Já até parece outro homem, disse, interpretando a ausência do chapéu como o primeiro passo para um programa de rejuvenescimento. O aposentado livrou-se do importuno. "livre! estou livre!" namorou vitrinas, tomou café, repetiu café, tomou chope, foi, voltou, viu, tomou café outra vez, cumprimentou... o tempo não passava. Mais lento ainda do que na repartição. A título de despedir-se de alguns companheiros e de apanhar uma
caneta-tinteiro, lembrou-se de chegar até lá. Na verdade, sentia-se impelido por um desejo ambíguo, como o general reformado que vai à paisana em visita a seu antigo regimento. Era tarde, porém; o rush se avolumara. Achou melhor voltar para casa, postar-se na fila do bonde. "Livre! estou livre!"
Durante a subida, a brisa fresca fê-lo sentir a falta do chapéu. Via-se como que despido. Floripes serviu-lhe o jantar, deixou tudo arrumado, e retirou-se para dormir no barraco da filha. Mais do que nunca, sentiu josé maria naquela noite a solidão da casa. não tinha amigos, não tinha mulher nem amante. Já lera todos os jornais. Havia o telefone, é verdade. Mas ninguém chamava. Lembrava-se que certa vez, há uns quinze anos, aquela fria coisa, pendurada e morta, se aquecera à voz de uma mulher desconhecida. A máquina que apenas servia para recados ao armazém e informações do ministério transformara-se então em instrumento de música: adquirira alma, cantava quase. De repente, sem motivo, a voz emudecera e o aparelho voltou a ser na parede do corredor a aranha de metal, sempre calada. O sussurro da vida, o sangue de suas paixões
passavam longe do telefone de Zé Maria... Como vencer a noite que mal começava?
Fechou o rádio com desespero, virou dois tragos de vinho do porto, deitou-se. a espaços ouvia o barulho do bondezinho rilhando nas curvas da colina, a explosão de um e outro foguete que subiam da vertente de águas férreas, seguida de latidos de cães e gritos indistintos. Ingeriu outra dose de vinho e adormeceu. O telefone toca. Quem será? Quem se lembraria dele? Algum convite? Trote?
- Alô, meu bem!
- Alô! Aqui fala José Maria.
- É engano, proferiu secamente a interlocutora.
Era engano! Antes não o fosse. A quem estaria destinada aquela voz carregada de ternura? Preferia que dissesse desaforos, que o xingasse. A boca feminina já devia estar dizendo frases de amor na linha procurada. Era um triste aparelho telefônico!
Atirou-se de bruços na cama e sonhou. Sonhou que conversava ao telefone e era a voz da mulher de há quinze anos... foi andando para o passado... abriu-se-lhe uma cidade de montanha, pontilhada de igrejas.
E sempre para trás - tinha então dezesseis anos -' ressurgiu-lhe a cidadezinha onde encontrara Duília. Aí parou e duília lhe repetiu calmamente aquele gesto, o mais louco e gratuito, com que uma moça pode iluminar para sempre a vida de um homem tímido.
Acordou com raiva de ter acordado, fechou os olhos para dormir de novo e reatar o fio de sonho que  trouxe Duília, mas, a imagem esquiva lhe escapou, Duília desapareceu no tempo. Á medida que os meses passavam, foi tomando horror à expressão "funcionário público aposentado", que lhe cheirava a atestado de óbito. Jurou nunca mais freqüentar a "mão do salvador", instituição de caridade, cuja sede, com seus móveis severos e gente sem graça, lembrava o ambiente atroz da repartição.
Chamava floripes a todo momento, queria saber minúcias do passado dela. Ia dar início a profundas modificações em sua pessoa. Começaria pelos trajes: roupa clara, moderna, não mais aqueles ternos escuros cobrindo a eventual austeridade. Seu físico de homem empinado e enxuto não parecia de todo desagradável. Entraria de sócio para algum clube; e se encontrasse um professor discreto, talvez aprendesse a dançar. Essas providências seriam a sua toilette exterior para a nova fase da vida. Semanas depois, aliviado do colarinho duro, era visto pelas ruas em trajes mais leves, sorrindo forçado para os conhecidos. Tornou-se sócio de um clube da lagoa. Sozinho porém nunca punha os pés lá, até que um dia se fez acompanhar pelo Lulu, bom atleta e péssimo funcionário, que o apresentara como "velho servidor do estado" às principais
beldades do bairro. Como dialogar com elas? Não conhecia futebol nem equitação, não sabia jogar baralho, não guardava nomes de artistas de cinema, ignorava os escândalos da sociedade. Tentou manter conversa, não conseguiu. parecia-lhe que zombavam dele. Se algumas moças lhe dirigiam a palavra era como se lhe atirassem esmola. Acabou a noite só e triste, agarrado ao seu copo de uísque. Quase nunca provava essa bebida; achava-a até ruim. Como fazia parte do rito social, não custava virar o copo. Deixou o Lulu com as moças, e saiu fazendo uma careta. "Velho servidor do estado..."o farol dos automóveis apagava nas águas da lagoa o reflexo das últimas estrelas. Um casal abraçava-se debaixo de uma amendoeira. Sentiu-se mais
só. A vida era para os outros. antes tivesse ainda algum processo a informar; estaria ocupado em alguma cousa. Não! Um começo de soluço contraiu-lhe a garganta. Chamou um táxi.
No dia seguinte postou-se, como outros de sua idade, numa das esquinas da rua Gonçalves Dias, local preferido pelos militares da reserva e aposentados de luxo, gente saudosa do passado. Notou que eles se compraziam em adejar perto dos doces da confeitaria, e ver passar as damas elegantes de outrora. Ali se perfilava, de terno branco, um velho almirante de suas relações:
- Olhe, faça como eu: nunca se convença de que é aposentado. Adquira algum vício, se já não o tem. evite os velhos. Um pouco de exercício pela manhã. Hormônios às refeições, não é mau. Quanto a conviver, só com gente moça. Ele aprendera na véspera o que era conviver com gente moça... para rematar, e como índice de otimismo, contou-lhe o almirante uma anedota pornográfica. O funcionário riu com esforço, e despediu-se enojado. Entrou numa livraria. Buscaria a solução na leitura dos romances. Pediu um, à escolha do caixeiro. Tentou ler. Impossível passar das primeiras páginas. Não compreendia como tanta gente perde horas lendo mentiras. Ao atravessar, dias depois, o viaduto, deixou o livro cair lá embaixo, sentiu-se livre daquilo.
O melhor mesmo era ficar debruçado à janela e todas as manhãs, enquanto a criada abria a meio as venezi-anas para deixar sair a poeira da arrumação, José Maria as escancarava para fazer entrar a paisagem. dali
devassava recantos desconhecidos. Ilhas que jamais suspeitara. Acompanhava a evolução das nuvens, começava a distinguir as mutações da luz no céu e  sobre as águas. Notava que tinha progredido alguma coisa na percepção dos fenômenos naturais. Começava a sentir realmente a paisagem e se considerava
quase livre da uréia burocrática. Esse noivado tardio com a natureza fê-lo voltar às impressões da
adolescência.
Duília! Toda vez que pensava nela, o longo e inexpressivo interregno do ministério, que chegava a confundir-se com a duração definitiva de sua própria vida, apagava-se-lhe de repente da memória. O tempo contraía-se. Duília! Reviu-se na cidade natal com apenas dezesseis anos de idade, a acompanhar a procissão que ela seguia cantando. Foi nessa festa da igreja, num fim de tarde, que tivera a grande revelação. Passou a praticar com mais assiduidade a janela. Quanto mais o fazia, mais as colinas da outra margem lhe recordavam a presença corporal da moça. Às vezes chegava a dormir com a sensação de ter deixado a cabeça pousada no colo dela. As colinas se transformavam em seios de Duília. Espantava-se da metamorfose, mas se comprazia na evocação.
Não ignorava o que havia de alucinatório nisso. Chegava a envergonhar-se. Como evitá-lo? E por que, se isso lhe fazia bem? Era o aforamento súbito da namorada, seus seios reluzindo na memória
como duas gemas no fundo d'água. Só agora se dava conta de que, sem querer, transferira para Adélia a imagem remota. Mas Adélia não podia perceber que era apenas a projeção da outra. Mesmo porque, temendo o ridículo, José Maria jamais se deixara trair. Disponível, sem jeito de viver no presente, compreendeu que despertara com muitos anos de atraso nos dias de hoje. Não encontraria mais os caminhos do futuro, nem havia mais futuro nenhum. Chegara ao fim da pista. De Beto, não havia mais notícias. Da velha cidade que restava? Onde o rio de outrora? As casas rentes ao solo, os pregões, o peixeiro à porta? A cada arranha-céu que subia - eles sobem a todo momento - a cidade calma de José Maria ia-se desmanchando. Sentiu que sobrava. Impossível reatar relações com uma cidade irreconhecível.
Pediu que o cancelassem do clube da lagoa; desistiu da aula de dança. Só lhe fazia bem  desen-tranhar o passado. Dias e noites o evocava com a cumplicidade da paisagem e no fundo da contemplação, insistiam os dois focos luminosos. Ora se acendendo, ora se apagando. Odiava recordar-se da repartição. Nem sabia explicar como, nas tardes de movimento, mais de uma vez suas pernas o largaram nas imediações do ministério. Começava a sentir-se livre para outra direção que o chamava para o que havia de mais excitante em sua vida. Ao apelo póstumo, nem tudo de seu passado parecia perdido. Sabia agora o que ia fazer. Trauteando uma canção, tomou o bondezinho, entrou em casa com o coração palpitando. Reviu-se mais jovem ao espelho. Quando floripes chegou de manhã cedo, encontrou-o de pé, lamentava não ter tempo de encomendar um terno novo para apresentar-se melhor ao seu passado...
- Floripes, tú tomas conta do apartamento. Eu vou viajar. Meu procurador te dará dinheiro para as despesas. Se Beto aparecer, dirás que eu parti... dirás também que... não, não precisas dizer mais nada. Se quiseres, traze para cá tua filha e o netinho. Floripes parou espantada.
- Será que o patrão vai-se embora?
- Vou, Floripes.
- Para não voltar mais?
- Não sei, Floripes.
- E se chegar alguma carta, patrão, para onde devo mandar?
- Não haverá cartas para mim. ninguém me escreve...
- E se alguém telefonar?
- Oh, Floripes, por favor...
O que transpirava de solidão e amargura nessas palavras, compreendeu-o a velhafloripes, que se absteve de novas perguntas. Descendo à cidade, José Maria comprou malas, preveniu passagens.
Outro homem agora, alegre quase. Não precisaria mais fazer esforço para ser o que não era. Difícil coisa querer forçar a alma e o corpo a uma vida a que não se adaptam. Agora, sim, ia ser feliz e se alvoroçava como o imigrante que se repatria. Fazia uma tarde bonita. Pela primeira vez Zé Maria achara agradável estar na rua. Mulheres sorrindo, vitrinas iluminadas. Parecia que a cidade, à última hora, caprichava em exibir-lhe alguns de seus encantos. Assim procede a mulher indiferente, ao ver partir o homem a quem fez sofrer.
Comprou um mapa do país. Só com apertá-lo ao peito sentiu-se livre e já fora do rio. Voltou para casa. Abriu-o em cima da cama, seguindo com a ponta do lápis os meandros do coração montanhoso do brasil.
- Aqui! marcou.
Era perto de uma cordilheira no centro-sul. a cidadezinha enchia-lhe o coração, embora insignificante demais para constar na carta. Estranhou o apito fanhoso da diesel à hora da partida. Voz sem autoridade, mais mugido que apito. Tão diferente do grito lírico da locomotiva que há mais de quarenta anos o trouxera do interior. Entristeceu. Muita coisa haveria que encontrar pela frente, modificada pelo progresso: a locomotiva por exemplo; o trem de luxo em que viajava. Seu desejo era refazer de volta, pelos meios de antigamente, o mesmo roteiro de outrora. Impossível. estradas novas vieram substituir-se aos caminhos que levam ao passado. Com o coração inundado de reminiscências, preferia evitar Belo Horizonte. Receava que a visão da cidade nova viesse
aumentar-lhe a sensação do envelhecimento pessoal. Pela madrugada, o trem parou horas entre duas estações. O viajante despertou com o silêncio. Só ouvia o sussurro do ventilador. toda a composição de um cargueiro tinha tombado mais adiante, entornando manganês pelo vale. preparava-se a baldeação. José Maria aproveitou para descer e sentir o cheiro de Minas. O sol
vinha esgarçando devagar o véu de bruma que cobria as serras tranqüilas. Anoitecia já em Belo Horizonte, quando chegou com atraso. Disseram-lhe que era preciso tomar, no dia seguinte, a "jardineira" para Curvelo.
A nova capital, mesquinha cidade poeirenta há quarenta anos, era agora um grande centro onde ninguém se lembraria dele. Para que então sair à rua, ver arranha-céus, caminhar entre as novas gerações de desconhecidos? Preferível fechar-se no quarto do hotel até que chegasse a hora da "jardineira agradável na manhã seguinte o percurso numa rodovia que não era de seu tempo. Ônibus e caminhões escureciam as estradas de poeira. Ao pé de uma serra calcárea, que  conhecera intacta, as chaminés de uma fábrica de cimento emitiam rolos de fumaça escura. Mais adiante, os fornos de uma siderúrgica. Cansado, adormeceu. Despertou com um coro longe, de vozes, coro que subitamente cresceu e passou, lançando-lhe no coração um jacto de poesia. Era uma "jardineira" repleta de mocinhas, colegiais de uniforme azul e branco que desciam do sertão para a reabertura do ano letivo na capital. No banco ao lado, um passageiro queimado de sol parecia esperar que José Maria acordasse para encetar conversa.
- Pois é. estamos em fins de fevereiro e nada de chuva! Em toda a parte agora tem Ceará. Se aquilo lá desaba - apontou para uma nuvem escura - é porque Deus qué me ajudá: tá mesmo em cima de minha roça. Mas não desaba, não!...
Olhou fitamente para José Maria. Teria achado nele um tipo estranho à região.
- Vosmecê também vai comprá cristá, não é?
- Não, respondeu José Maria.
- Tá indo pro Rio S. Francisco?
- Não. Estou indo para um lugar chamado Pouso Triste.
- Pra cá de Monjolo? Ah! Conheço por demais... já botei roça lá perto.
- Ouviu por acaso falar em Duília?
- Duília... Duília... espera aí... Duília... Ah! O senhor queria dizer d. Dudu, não é? Conheço muito.
José Maria sentiu um estremecimento. Arrependera-se da pergunta. Calou-se. A deformação de um nome tão doce como Duília horrorizava-o. Devia ser outra pessoa. Era melhor não prosseguir na conversa. O homem queimado compreendeu, e calou-se. Ao entardecer, apitava uma fábrica de tecidos e uma vitrola esganiçava a todo pano, quando a "jardineira" encostou à porta do hotel principal de uma cidade. Era curvelo, boca do sertão mineiro. José Maria já se sentia dentro da área do passado.
Daí em diante a viagem se faria nas costas de um burro. Tudo como quando tinha dezesseis anos. Tratou um "camarada" que o gerente do hotel lhe indicara. Na manhã seguinte, cedinho, partiu rumo de leste.
- Se não cai temporá, nóis chega dereitinho, patrão - disse-lhe o camarada, enquanto Curvelo desaparecia atrás, numa nuvem de poeira.
O velho funcionário, ao mesmo tempo que sentia a delícia de montar um animal e respirar o ar puro, receava lhe voltassem aquelas pontadas que o atormentavam na repartição. Soero, o camarada, desconfiava estar seguindo um homem importante; mas não ousava perguntar.
-O Rio das Velhas vem vindo por aí, anunciou depois das primeiras horas de caminhada. pouco depois, o rio fiel aparecia ao viajante.
 - oh! velho rio das velhas! Exclamou José Maria. Sempre no mesmo lugar! E todo esse tempo
me esperando!
Achou-o tranqüilo, mas um pouco emagrecido. Soero foi chamar o balseiro, enquanto José Maria, agachado na areia, deixava que o velho rio lhe ficasse correndo longo tempo entre os dedos.
embarcaram as alimárias, e foram deslizando de balsa para a margem oposta. de pé, o funcionário parecia estar sonhando. a bengala desamarrou-se da mala e caiu na correnteza. soero quis mergulhar. - deixa, deixa! Gritou José Maria. Preferia não perdê-la. era afinal uma lembrança dos ex-colegas. Mas já que foi para o fundo do rio, que lá ficasse. Almoçaram e retomaram a montaria.
- Agora vem dumbá. oito léguas, disse o camarada.
- E o paraúna? reclamou o viajante, recordando-se.
- Ainda temos que atravessá.
Tudo era deslumbramento para o viajante. À medida que ouvia esses nomes quase esquecidos, a coisa nomeada aparecia logo adiante, rio ou povoado. As léguas se estiravam, a noite ia longe. ou porque a escuridão fosse maior com a lua minguante, ou porque a correnteza engrossasse de repente, o Paraúna surgiu mudado e agressivo. nem parecia o rio que os viajantes atravessam a vau. Soero explicou que devia ter chovido muito nas cabeceiras, daí aquele despropósito de águas; mas baixariam depressa, esses rios magrinhos enfezam por qualquer pancada de chuva, depois se aquietam que nem córrego manso.
- Se vosmecê não quisé chegá até o arraiá, a gente espaia os burro e arrancha por aqui mesmo.
Apearam-se. soero desceu os arreios e a cangalha, amarrou o cincerro ao pescoço do cavalo-madrinha, e deixou os animais pastando perto. Deitado no couro, josé maria escutava o sussurro das águas. pouco se
lhe dava o corpo moído, a dor nos rins. nunca se imaginara deitado ao relento, a cabeça quase encostada a um de "seus rios". ficou a escutá-lo. Era como o primeiro rumor de um passado que vinha se aproximando.
Cobrindo-se com a manta, adormeceu. soero fumava e se persignava, a olhar desconfiado para a outra margem onde um vulto branco parecendo fantasma esperava pelo abaixamento das águas. De madrugada o paraúna voltou ao natural. soero saudou o vulto de branco com quem cruzou no meio do rio. O homem respondeu em latim.
José Maria se espantou ao ouvir frases latinas em cima daquelas águas,naquele ermo... perguntou o que era aquilo. Soero disse que não sabia,sempre o encontrava bêbado pelos caminhos.- dizem que sabe muito e ficou maluco. As alimárias seguiam agora em trote mais animado para a rancharia dodumbá, onde, a conselho do "camarada", devia o viajante descansar o restoda tarde e passar a noite, antes de encetarem a travessia mais difícil da serrado riacho do vento, na cordilheira do espinhaço.a rancharia é pouso forçado para quem atravessou ou vai atravessar acordilheira. Reconheceu-a de longe o viajante, pelo pé de tamarindo. O mesmo de sempre. O pernoite ali, enquanto os animais recebiam ração mais forte de sal ecapim, ia permitir ao metódico funcionário a recuperação das forças exaundas. viagem violenta demais para um sedentário.
Ficara-lhe nos ouvidos o Paraúna com o barulho de suas águas. Não era o desconforto da cama nem a pobreza do aposento que lhe tiravam osono; nem o latido dos cães, nem o relinchar dos burros; nem uma sanfonatriste que parecia exprimir toda a solidão lá fora: era o fato de se achar maisperto, dentro quase daquilo que não precisava mais evocar para sentir.
Mais algumas léguas e tocaria o núcleo de seu sonho.O que mais o espantara no gesto de duília - recordava-se josé mariadurante a insônia, agarrando-se ao travesseiro - foi a gratuidade inexplicávele a absurda pureza. ela era moça recatada, ele um rapazinho tímido; apenasse namoravam de longe. Mal se conheciam. A procissão subia a ladeira, O canto místico perdia-se no céu de estrelas. De repente, o séquito parou paraque as virgens avançassem, e na penumbra de uma árvore, ela dá com o olhardele fixo em seu colo, parece que teve pena e, com simplicidade, abrindo ablusa, lhe disse: - quer ver? - Ele quase morre de êxtase. `Pálidos ambos, ela ainda repete: - quer ver mais? - e mostra-lhe o outro seio branco,branco... e fechou calmamente a blusa. E prosseguiu cantando...só isso. Durou alguns segundos, está durando uma eternidade.
Apenas uma vez, depois do acontecimento, avistara duília. A moça se esquivara. Mas o que ela havia feito estava feito, e era um alumbramento. Custava acreditar que estivesse agora se aproximando dessa fonte declaridade. Sentiu bater mais depressa o coração e desejou que o dia raiasselogo.
Puseram-se de novo a caminho. Horas depois, galgavam a serra. Salvo nos capões onde a quaresma e o pequizeiro se destacavam, a vegetação ia-sefazendo mais pobre: canela-de-ema, coqueiro-anão, cacto - enquanto opanorama se ampliava, e a vista abarcava os longes. por um segundo essapaisagem cruzou no pensamento de josé maria com o panorama de santateresa. um segundo apenas, pois logo apareceu uma boiada que lhe cobriuo rosto num turbilhão de poeira.faltava o trecho maior para se chegar ao arraial de camilinho. Os burros suavam na subida penosa. - daqui a pouco vem o chapadão, avisou Soero.
A essa palavra, José Maria animou-se. Tal como na antevéspera, ao ouvir o nome Rio das Velhas. Pela altitude, pelas suas léguas de pedra e vento, pelo seu silêncio, esse chapadão do Riacho do Vento lhe surgira como entidade autônoma eorgulhosa, que dava passagem ao homem mas lhe negava abrigo para morar e pastagem para o gado. Era o trecho mais imponente e difícil no acesso à região de duília. Por ali transitara há mais de quatro decênios, fazia uma noite escura, só pelos relâmpagos podia suspeitar o panorama irreal que se desdobrava de dia. Ia então fazer os preparatórios em Ouro Preto, e caminhava cheio de medo parao futuro; seu pai e um caixeiro-viajante o acompanharam até a primeiraestação da estrada de ferro. Lá o puseram no carro. Foi quando começou aficar só no mundo, e pela primeira vez chorou o choro da tristeza. O velho funcionário não dava uma palavra. Contemplava. À esquerda,as extensões lisas das "gerais" do S. Francisco; à direita, as colinas arranhadas pelas minerações da bacia do alto Jequitinhonha. Estranhava o ar parado  numa serra que trazia o nome de riacho do vento.
Entre os trilhos quase apagados que confundiam o viandante, quem dava a direção era o cincerro do cavalo-madrinha. Já o sol deixara de reluzir nos aforamentos de pedra e mica, e ainda havia léguas pela frente. Como fica longe o lugar do passado! Abatido, o olhar vago, o viajante parecia estar seguindo os caminhosdo próprio pensamento. O cansaço aumentava. Onde era o fim do chapadão? O imenso Brasil. Era então por esses ermos sem fim que corriam ofíciose papéis da administração pública?! Quantos, ele mesmo, José Maria, fizera despachar sem a mais vaga idéia das distâncias que iam cobrir! mergulhava em reflexões. Infinita a distância entre a natureza e o papelório!
 De repente,dirigindo-se ao camarada:- você conhece Duília? Soero não ouvira bem, ou não compreendera a pergunta que vinha perfurar um silêncio de horas. Esperou que o patrão a repetisse, mas o gritode um pássaro desmanchou o começo do diálogo. E tudo ficou por isso mesmo.Depois de seis léguas de marcha batida, Soero sentiu que o homem misterioso não agüentava mais.- acho que de uma vezada só até Camilinho, é um bocado de chão pra vosmecê. Propôs uma pausa. Pouco adiante, descobriu uma grota para o pernoite. Num córrego de águas frescas, os animais desarreados mataram a sede. Os dois homens jantaram o que traziam nos bornais. Os couros foram novamente estendidos. José Maria, amedrontado, perguntou a Soero se havia onças por ali. O camarada tranqüilizou-o. Enquanto para este era aquela uma noitede rotina, para o velho funcionário repetia-se, a céu descoberto, a aventura excitante das margens do Paraúna. Doíam-lhe tanto os membros e era tal ocansaço, que já não podia contemplar por muito tempo as estrelas quecintilavam pertinho. Mergulhou no sono pesado.
Às onze horas do dia seguinte, entrava no arraial do camilinho. aí sedispunha a refazer as energias para a etapa final. Tudo o que vinha percorrendo já era país de Duília. Agora sim, não precisava ter pressa. A bem dizer, do alto do riacho do vento para cá, a moça parecia ter-lhe vindo ao encontro. Era como se ela viajasse na garupa do animal. O resto da tarde e a noite passou-os José Maria na pensão da Juvência. A velha nem se lembrava de que ele ali estivera, adolescente, ao deixar pousotriste: também ela o supunha algum emissário norte-americano atrás deminério para a guerra. José Maria preferiu passar incógnito. Absteve-se depedir informações. Mais seis horas e estaria naquela cidadezinha, face a face com a mulhersonhada. Não imaginava agora fosse tão fácil aproximar-se do que tão longelhe parecera no tempo ou no espaço. Detinha o burro a cada momento; olhava, hesitava. Nem mesmo se inquietara com a nuvem de chuva que vinha avançando do nordeste. Soero estranhou a indiferença do patrão. O aguaceiro caiu, molhou a ambos.  José Maria tinha medo de chegar. Passou a chuva, veio o sol, borboletas voejavam sobre a lama recente. E pouso triste se aproximando... perfil de colinas conhecidas... o riacho cristalino com um último faiscador... o sítio do Janjão. Agora, o cemitério onde dormem os seus pais... "estarei sonhando?"- Pouso Triste! Olhou confrangido. Era então aquilo!... e a cidade? Trazia na memória a visão de uma cidade: surgiu-lhe um arraial!...Pobre e inaceitável burgo, todo triste e molhado de chuva!...foi descendo devagar. Passou em frente à igreja, entrou na praça vazia.fantasmas desdentados conversavam à porta da venda.a brisa agitava as folhas da única árvore gotejante. Tinha sido ali...
A pensão. Parou e entrou. Pediu um banho, mudou de roupa. Sórdido chuveiro. Foi para a janela. Povoado lúgubre! Como compará-lo à cidade luminosa que erguera em pensamento para santuário de Duília? teve raiva de si mesmo. Nenhum parente, ninguém para reconhecê-lo. Melhor assim. Fixou a árvore. Era a mesma... pelo menos aquilo sobrevivera. Saiu para vê-lade perto; deixou-se ficar debaixo de seus galhos. Reviveu a cena inesquecível... mas não encontrou o mesmo sabor. A árvore parecia indiferente. Não se conformava com a falta de claridade. Nem a da luz exterior, nem a outra, subjetiva, que iluminava a cidade ideal onde se dera a apariçãoda moça. Pertinho, bem perto devia estar ela. Tão perto que assustava. Dentrode poucos instantes - o seu rosto, a sua voz, os seios!... mas aquele marasmo,o torpor das coisas - o envelhecimento da árvore e da paisagem, tudo prenunciava a impossibilidade de Duília. Timidamente, pediu notícias à dona da pensão. A velha fez um esforçode memória. E tal como o passageiro da "jardineira", respondeu: - Duília?...dona Dudu, não é? Uma viúva? Ah! Sumiu daqui já faz tempo. Ouvi dizerque está de professora no Monjolo. Ainda que mal lhe pergunte, vosmecê é parente dela?
- Não, disse José Maria. E para desarmar a curiosidade davelha:- trago-lhe umas encomendas. Deixou passar alguns instantes. Perguntou por perguntar: - sabe dizer se tem filhos?- filhos? um horror de netos!... que Deus me perdoe, o marido era uma peste.
Não quis saber do resto. Despediu-se de Soero, o bom camarada; pagou-lhe bem o serviço.Seguiria sozinho até Monjolo. Conhecia a estrada. Pouco mais de três léguas. Léguas que se tornaram difíceis, pois a lama era muita, e o burro mal ferradopatinhava. A viagem se arrastava sem o encantamento da que terminara na véspera.
Não desejava que a decepção de Pouso Triste influísse na sua chegada a Duília. Tudo agora parecia pior, o caminho mais estreito, mais aflitiva a ausência de claridade. Sentiu o deserto no coração. Sua alma deixou de viajar. Fazia-lhe falta a presença muda de Soero. Fez parar o animal.- será que Duília...novamente lhe viera o terrível pressentimento. Como aceitar outra imagem dela senão a que guardara consigo: a namorada eterna, fixa? A imaginação delirante não cedia à evidência da razão. A poucas horas da amada, José Maria tremia de medo. O burro começou a andar por conta própria. Os últimos quilômetroso viajante os fez como um autômato. Monjolo se anunciava por um som de sanfona que parecia o gemido constante do fundo do Brasil. Foi surgindo pela frente um arraial ainda menor e mais pobre que Pouso Triste. Os urubus não freqüentavam o céu, quase se deixavam pisar pelas patas da alimária. José Maria engoliu um soluço.
Tomados de espanto, os poucos moradores espiavam o estrangeiro.O letreiro "escola rural" aparecia em tinta esmaecida. Uma casinha modesta, com chiqueiro no porão. A sala de espera limpa, com gravuras de santos enfeitados de flores de papel, e que tanto servia à escola como à residência, nos fundos. As carteiras escolares estavam quebradas. O viajante apeou-se, bateu à porta. Uma senhora, muito pálida, veio atendê-lo em chinelos.
-Eu queria falar com Duília... dona Duília... Corrigiu. A senhora fê-lo entrar e sentar-se. Pediu licença, deixou a sala. Momentos depois, voltou mais arrumada. Seus cabelos eram grisalhos, a voz meio rouca, o sorriso agradável, apesar dos dentes cariados. Ainda não tinha sessenta anos, e aparentava mais.
-A senhora também é professora? Duas crianças gritaram da porta:
- Dona Dudu! dona Dudu!
Ela respondeu: - vão brincar lá fora. E virando-se para o estranho:-não se pode ficar sossegada um minuto. Esses meninos acabam com a gente. José Maria sentiu como que uma pancada na nuca. Baixou as pálpebras, confuso. A professora ficou esperando que ele se identificasse. Notou-lhe a fisionomia alterada, um começo de vertigem.- Está-se sentindo mal? Saiu e voltou com um copo d'água.
-Não foi nada. O cansaço da viagem. Já passou. Olhava para ela estarrecido. A mulher, aflita por que o desconhecido desse o nome.
-Veio a passeio, não é?
-Não. Não vim propriamente a passeio...
-Um lugar tão distante... ultimamente as jazidas têm atraído muitosestrangeiros para cá.-eu não sou estrangeiro - respondeu o visitante. sou brasileiro...e daqui... de bem perto daqui. Sou também de pouso triste...
Uma expressão de surpresa e simpatia clareou o rosto da professora. José Maria encarou-a com dolorosa intensidade. Subitamente empalideceu. Chegara o momento culminante. Fechou os olhos como se não quisesse vero efeito das próprias palavras. A professora pressentiu que algo de grave trouxera até ali o sombrio visitante. Atordoada, esperou. José Maria principiou a falar:
- Lembra-se de um rapazinho, há muitos anos, que a viu numa procissão? A mulher abriu os olhos.
- Nós tínhanos parado debaixo de uma árvore... lembra-se? Ela ainda está lá... não morreu. Eu olhava como um louco para você, Duília...Ao ouvir pronunciar seu nome com intimidade cúmplice, a professora teve um arrepio. 
O homem não sabia como continuar. Hesitou um momento.
- Depois... depois eu larguei Pouso Triste. Nunca mais me esqueci. E só agora...parou no meio da frase. Tremia-lhe o queixo. A mulher, assustada, reconhecera nele o rapazinho de outrora. Fitou-o longamente. Passou-lhe pelo rosto um lampejo de mocidade. Volvendo a cabeça para o chão, enrubesceu com quarenta anos de atraso...Quedaram-se por alguns momentos. O vazio do mundo pesava sobre o sossego do povoado.
Grunhiam os porcos embaixo. Um cheiro de lavagem e de goiaba madura entrava pela janela, e parecia a exalação do passado. José Maria suspirou fundo. Aquela mulher, flor de poesia, era agora aquilo! Fantasma da outra, ruína de Duília... dona Duília... Dudu! A mulher interrompeu a longa pausa:
- Tudo aqui envelheceu tanto! Disse, erguendo a cabeça. Que veio fazer nesse fim de mundo, seu José Maria? Ouvindo-a por sua vez pronunciar-lhe o nome, sentiu-se José Maria menos distante dela. Parecia que davam juntos o mesmo salto no tempo.
- Vim à procura de meu passado, respondeu.
- Viajar tão longe para se encontrar com uma sombra! E volvendo-se para si mesma: - Veja a que fiquei reduzida José Maria pousou o olhar no colo murcho, local do memorável acontecimento. Aquilo que ali estava poderia ser a mãe de Duília, da Duília que ele trazia na memória, jamais a própria.
- Não devia ter feito isso, advertiu a mulher, como que despertando da profunda cisma.
- O quê?
- Voltar ao lugar das primeiras ilusões.
"Sim, é verdade, pensou o homem, não devia ter vindo. O melhor do seu passado não estava ali, estava dentro dele. a distância alimenta o sonho. Enganara-se. Tal como Fernão Dias com as esmeraldas..."Ergueu-se, chegou à janela.  A tarde caía depressa. Os casebres se fundiam na cinza suja. Uma preta entrou e acendeu o lampião de querosene. Não tinha mais tempo para criar novas ilusões.  Nada mais a esperar. Ficaria por ali mesmo... Floripes fizesse o que entendesse da casinha de Santa Teresa. Felizes os que ainda desejam alguma coisa, os que lutam e morrem por alguma coisa. Felizes aquelas meninas que desceram cantando para Belo Horizonte. A ele, José Maria, só lhe restava encalhar naquele buraco, dissolver-se por ali mesmo, agarrado aos últimos destroços do passado. Sentiu falta de ar. Bem a seu lado se achava alguém que se dizia Duília, espectro da outra. Espectro também,  Pouso Triste; e aquele mesquinho arraial lá fora... e tudo o mais que a noite vinha cobrindo! Súbita raiva transfigurou-lhe as feições. Voltou a ser o estranho, o que invadira a mansão de miséria e paz da velha professora.
Teve ímpeto deespancá-la, destruir aquele corpo que ousara ter sido o de Duília. Desse corpo de que só vira um trecho, num relâmpago de esplendor...ante o silêncio sombrio do visitante, a professora teve medo. Procurou aliviar-lhe o desespero contido.
- Vai voltar para o Rio? Ao ouvir a voz mansa, José Maria enterneceu-se. Sentia-lhe no timbre a ressonância musical da antiga. Sentou-se de novo; e fechando o rosto com as mãos, caiu no pranto. achou-se ridículo, pediu desculpas. duília, compassiva, tomou-lhe a mão, procurou consolá-lo. Um sentimento comum aproximava-os. Espantou-se a professora ao se dar conta do que estava fazendo: dar amão ao quase desconhecido de há pouco. Por longo tempo, as duas mãos enrugadas se aqueceram uma na outra. Mudos, transidos de emoção, ambos cerraram os olhos. Duas sombras dentro da sala triste...o homem não se conteve. Ergueu-se, saiu precipitadamente. A professora correu atrás:
- José Maria! Senhor José Maria!...a voz rouca mais parecia soluço do que apelo.- José Maria!
Os moradores se alvoroçaram:
- o que terá havido com a professora?- Foi depois que chegou aquele estrangeiro alto!- quem será esse indivíduo? E já se preparavam para perseguir o intruso, munindo-se de pedras epedaços de pau. Mas o desconhecido desapareceu na escuridão. Parada no meio do largo, duília arquejava. Ninguém lhe ouvia mais a voz nem lhe distinguia o vulto.
Alguns soluços cortaram a treva.

O conto retrata a realidade de um aposentado que dedicou a vida ao trabalho e se dá conta de repente que não construira outros círculos de relacionamento. Trata ainda da questão da ilusão do passado mostrando que muitas vezes mantemos uma imagem em nossa ilusão que na realidade já foi totalmente alterada. Cheiros, lugares, músicas atualizam essa ilusão e, deparar com a realidade pode ser frustrante. "Sim, é verdade, pensou o homem, não devia ter vindo. O melhor do seu passado não estava ali, estava dentro dele. a distância alimenta o sonho.



O Embargo
Saramago


Acordou com a sensação aguda de um sonho degolado e viu diante de si a chapa cinzenta e gelada da vidraça, o olho esquadrado da madrugada que entrava, lívido, cortado em cruz e escorrente de transpiração condensada. Pensou que a mulher esquecera de correr o cortinado ao deitar-se, e aborreceu-se: se não conseguisse a voltar a dormir já, acabaria por ter o dia estragado. Faltou-lhe porém o ânimo para levantar-se, para tapar a janela: preferiu cobrir a cara com um lençol e virar-se para a mulher que dormia, refugiar-se no calor dela e no cheiro d seus cabelos libertos. Esteve ainda uns minutos à espera, inquieto, a temer a espertina matinal. Mas depois acudiu-lhe a idéia do casulo morno q era a cama e a presença labiríntica do corpo a que se encostava, e, quase a deslizar num círculo lento de imagens sensuais, tornou a cair no sono. O olho cinzento da vidraça foi-se azulando aos poucos, fitando fixo as duas cabeças pousadas na cama, como restos aquecidos de uma mudança para outra casa ou para outro mundo. Quando o despertador tocou, passadas duas horas, o quarto estava claro. Disse à mulher que não se levantasse, que aproveitasse um pouco mais da manhã, e escorregou para o ar frio, para a humidade indefinível das paredes, dos puxadores das portas, das toalhas da casa de banho. Fumou o primeiro cigarro enquanto se barbeava e o segundo com o café, que entretanto aquecera. Tossiu como todas as manhãs. Depois vestiu-se às apalpadelas, sem acender a luz do quarto. Na queria acordar a mulher. Um cheiro fresco de água-de-colônia avivou a penumbra, e isso fez que a mulher suspirasse de prazer quando o marido debruçou-se na cama para lhe beijar os olhos fechados. E ele sussurrou que não viria almoçar a casa. Fechou a porta e desceu rapidamente a escada. O prédio parecia mais silencioso que de costume. Talvez do nevoeiro, pensou. Reparara que o nevoeiro era assim como uma campânula que abafava os sons e os transformava, dissolvendo-os, fazendo deles o que fazia com as imagens. Estaria nevoeiro. No último lanço da escada já poderia ver a rua e saber se acertara. Afinal havia uma luz ainda cinzenta, mas dura e rebrilhante, de quartzo. Na berma do passeio, um grande rato morto. E enquanto, parado à porta, acendia o terceiro cigarro, passou um garoto embaçado, de gordo, que cuspiu em cima do animal, como lhe tinham ensinado e sempre via fazer. O automóvel estava cinco prédios abaixo. Grande sorte ter podido arruma-lo ali. Ganhara a superstição de que o perigo de lhe roubarem seria tanto maior quanto mais longe o tivesse deixado à noite. Sem nunca o ter dito em voz alta, estava convencido de que não voltaria a ver o carro se o deixasse em qualquer extremo da cidade. Ali, tão perto, tinha confiança. O automóvel apareceu-lhe coberto de gotículas, os vidros tapados de humidade. Se não fosse o frio tanto, poderia dizer-se que transpirava como um corpo vivo. Olhou os pneus segundo o deu hábito, verificou de passagem que a antena não fora partida e abriu a porta. O interior do carro estava gelado. Com os vidros embaciados, era uma caverna translúcida afundada sob um dilúvio de água. Pensou que teria sido melhor deixar o carro em sítio onde pudesse faze-lo descair para pegar mais facilmente. Ligou a ignição, e no mesmo instante o motor roncou alto, com um arfar profundo e impaciente. Sorriu, satisfeito da surpresa. O dia começava bem. Rua acima, o automóvel arrancou, raspando o asfalto como um animal de cascos, triturando o lixo espalhado. O conta-quilómetros deu um salto repentino para 90, velocidade de suicídio na rua estreite e ladeada de carros parados. Que seria isto? Retirou o pé de acelerador, inquieto. Por pouco diria que lhe teriam trocado o motor por outro muito mais potente. Pisou à cautela o acelerador dominou o carro. Nada de importância. Às vezes não se controla bem o balanço do pé. Basta que o tacão do sapato não assente no lugar habitual para que se altere o movimento e a pressão. É simples. Distraído com o incidente, ainda não olhara o marcador da gasolina. Ter-lhe-iam roubado durante a noite, como já não era a primeira vez? Não. O ponteiro indicava precisamente meio depósito. Parou num sinal vermelho, sentindo o carro vibrante e tenso nas suas mãos. Curioso. Nunca dera por essa espécie de frémito animal que percorria em ondas a chapas da carroçaria e lhe fazia estremecer o ventre. Ao sinal verde, o automóvel pareceu serpentear, alongar-se como um fluido , para ultrapassar os que lhe estavam à frente. Curioso. Mas, na verdade, sempre se considerara muito melhor condutor do que o comum. Questão de boa disposição, esta agilidade dos reflexos hoje, talvez excepcional. Meio depósito. Se encontrasse um posto de abastecimento a funcionar, aproveitaria. Pelo seguro, com todas as voltas que tinha que dar antes de ir para o escritório, melhor de mais que de menos. Este estúpido embargo. O pânico, as horas de espera, filas de dezenas e dezenas de carros. Meio depósito. Outros andam a essa hora com muito menos, mas se for possível atestar. O carro fez uma curva balançada, e, no mesmo movimento, lançou-se numa subida íngreme sem esforço. Ali perto havia uma bomba pouco conhecida, talvez tivesse sorte. Como um perdigueiro que acode ao cheiro, o carro insinuou-se por entre o trânsito, voltou duas esquinas e ocupar espaço na fila que esperava. Boa lembrança. Olho o relógio. Deviam estar à frente uns vinte carros. Nada de exagerado. Mas pensou que seria melhor ir ao escritório e deixar as voltas para a tarde, já cheio o depósito, sem preocupações. Baixou o vidro para chamar um vendedor de jornais que passava. O tempo arrefecera muito. Mas ali, dentro do automóvel, de jornal aberto sobre o volante, fumando enquanto esperava, havia um calor agradável, como o dos lençóis. Fez mover os músculos das costas, com uma torção de gato voluptuoso, ao lembrar-se da mulher ainda enroscada na cama àquela hora, e recostou-se melhor no assento. O jornal não prometia nada de bom. O embargo mantinha-se. Um Natal escuro e frio, dizia um dos títulos. Mas ele ainda dispunha de meio depósito e ao tardaria a té-lo cheio. O automóvel da frente avançou um pouco. Bem. Hora e meia mais tarde estava a atestar , e três minutos depois arrancava. Um pouco preocupado porque o empregado lhe dissera, sem qualquer expressão particular na voz, de tão repetida a informação, que não haveria ali gasolina antes de quinze dias. No banco, ao lado, o jornal anunciava restrições rigorosas. Enfim, do mal o menos, o depósito estava cheio. Que faria? Ir directamente ao escritório, ou passar primeiro por casa de cliente, a ver se apanharia a encomenda? Escolheu o cliente. Era preferível justificar o atraso com a visita, a ter de dizer que passara hora e meia na fila da gasolina quando lhe restava meio depósito. O carro estava óptimo. Nunca se sentira tão bem a conduzi-lo. Ligou o rádio e apanhou um noticiário. Notícias cada vez piores. Estes árabes. Este estúpido embargo. De repente, o carro deu uma guinada e descaiu para a rua à direita, até parar numa fila de automóveis mais pequena do que a primeira. O que fora aquilo? Tinha o depósito cheio, sim, praticamente cheio, porque diabo de lembrança. Manejou a alavanca das velocidades para meter a marcha atrás, mas caixa não lhe obedeceu. Tentou forçar, mas as engrenagens pareciam bloqueadas. Que disparate. Agora avaria. O automóvel da frente avançou. Receosamente, a contar com o pior, engatou a primeira. Tudo perfeito. Suspirou de alívio. Mas como estaria a marcha atrás quando tornasse a precisar dela? Cerca de meia hora depois metia meio litro de gasolina no depósito, sentindo-se ridículo sob o olhar desdenhoso do empregado da bomba. Deu uma gorjeta absurdamente alta e arrancou num grande alarido de pneus e acelerações. Que diabo de ideia. Agora ao cliente, ou será uma manhã perdida. O carro estava melhor do que nunca. Respondia aos seus movimentos como se fosse um prolongamento mecânico do seu próprio corpo. Mas o caso da marcha atrás dava que pensar. E eis que teve que pensar mesmo. Uma grande camioneta avariada tapava todo o leito da rua. Não podia contorná-la, não tivera tempo, estava colado a ela. Outra vez a medo, manejou a alavanca, e a marcha atrás engrenou com um ruído suave de sucção. Não se lembrava de a caixa de velocidades ter reagido dessa maneira antes. Rodou o volante para esquerda, acelerou, e de um só arranco o automóvel subiu o passeio, rente aa camioneta, e saiu do outro lado, solto, com uma agilidade de animal. O diabo do carro tinha sete fôlegos. Talvez que por causa de toda essa confusão do embargo, tudo em pânico, os serviços desorganizados tiveram feito meter nas bombas gasolina de muito maior potência. Teria a sua graça. Olhou o relógio. Valeria ir ao cliente? Por sorte apanharia o estabelecimento ainda aberto. Se o trânsito ajudasse, sim, se o trânsito ajudasse, teria tempo. Mas o trânsito não ajudou. Tempo do Natal, mesmo faltando a gasolina, toda a gente vem para a rua, a empatar quem precisa de trabalhar. E ao ver uma transversal descongestionada, desistiu de ir ao cliente. Melhor seria explicar qualquer coisa no escritório o e deixar para tarde. Com tantas hesitações desviara-se muito do centro. Gasolina queimada sem proveito. Enfim, o depósito estava cheio. Num largo ao fundo da rua por onde descia viu outra fila de automóveis, à espera de vez. Sorriu de gozo e acelerou, decidido a passar roncando contra os entanguidos automobilistas que esperavam. Mas o carro, a vinte metros, obliquou para esquerda, por si mesmo, e foi parar, suavemente, como se suspirasse, no fim da fila. Que cisa fora aquela, se não decidira meter mais gasolina? Que coisa era, se tinha o depósito cheio? Ficou a olhar os diversos mostradores, a apalpar o volante custando-lhe a reconhecer o carro, e nessa sucessão de gestos puxou o retrovisor e olhou-se no espelho. Viu que estava perplexo e considerou que tinha razão. Outra vez pelo retrovisor distinguiu um automóvel que descia a rua, com todo o ar de vir colocar-se na fila. Preocupado com ideia de ficar ali imobilizado, quando tinha o depósito cheio, manejou rapidamente a alavanca para a marcha atrás. O carro resistiu e alavanca fugiu-lhe das mãos. No segundo imediato achou-se apertado entre seus dois vizinhos. Diabo. Que teria o carro? Precisava de leva-lo à oficina. Uma marcha atrás que funcionava ora sim ora não, é um perigo. Tinha passado mais de vinte minutos quando fez avançar o carro até à bomba. Viu chegar-se o empregado e a voz apertou-se-lhe ao pedir que atesta-se o depósito. No mesmo instante, fez uma tentativa para fugir à vergonha, meteu uma rápida primeira e arrancou. Em vão. O carro não se mexeu. O homem da bomba olhou desconfiado, abriu o depósito, e, passados poucos segundo, veio pedir o dinheiro de um litro, que guardou resmungando. No instante logo, a primeira entrava sem qualquer dificuldade e o carro avançava, elástico, respirando pausadamente. Alguma coisa não estaria bem no automóvel, nas mudanças, no motor, em qualquer sítio, diabo levasse. Ou estaria ele a perder a suas qualidades de condutor? Ou estria doente? Dormira ainda assim bem, não tinha mais preocupações da vida que em todos os outros dias dela. O melhor seria desistir por agora de cliente, não pensar neles durante o resto do dia e ficar no escritório. Sentia-se inquieto. Em redor de si, as estruturas do caro vibravam rapidamente, não à superfície, mas no interior dos aços, e o motor trabalhava com aquele rumor inaudível de pulmões enchendo e esvaziando, enchendo e esvaziando. Ao princípio, sem saber por quê, deu por que estava a traçar mentalmente um itinerário que o afastasse das outras bombas de gasolina, e quando percebeu o que fazia assustou-se, temeu-se de não estar bom da cabeça. Foi dando voltas, alongando e cortando caminho, até que chegou em frente ao escritório. Pôde arrumar o carro suspirou de alívio. Desligou o motor, tirou a chave e abriu a porta. Não foi capaz de sair. Julgou que a aba da gabardina se prendera, que a perna ficara entalada na coluna do volante, e fez outro movimento. Ainda procurou o cinto de segurança, a ver se o colocara sem dar por isso. Não. O cinto estava pendurado ao lado, tripa negra e mole. Disparate, pensou. Devo estar doente. Podia mexer livremente os braços e as pernas, flectir ligeiramente o tronco consoante as manobras, olhar para trás, debruçar-se um pouco para a direita, para o cacifo das luvas, mas as costas aderiam ao encosto do banco. Não rigidamente, mas como um membro adere ao corpo. Acendeu um cigarro, e de repente preocupou-se com o que diria ao patrão se assomasse a uma janela e o visse ali sentado, dentro do carro, a fumar, sem nenhuma pressa de sair. Um toque violento de claxon fé-lo fechar a porta, que abrira para a rua. Quando o outro carro passou, deixou descair lentamente a porta outra vez, atirou o cigarro fora e, segurando-se as mãos ambas ao volante, fez um movimento brusco, violento. Inútil. Nem sequer sentiu dores. O encosto do banco segurou-o docemente e manteve-o preso. Que era isto que estava a acontecer? Puxou para baixo retrovisor e olhou-se. Nenhuma diferença no rosto. Apenas uma aflição imprecisa que mal se dominava. Ao voltar a cara para a direita, para o passeio, viu uma rapariguinha a espreitá-lo, ao mesmo tempo intrigada e divertida. Logo a seguir surgiu uma mulher com um casaco de abafo nas mãos, que a rapariga vestiu, sem deixar de olhar. E as duas afastaram-se, enquanto a mulher compunha a gola e os cabelos da menina. Voltou a olhar no espelho e compreendeu o que devia fazer. Mas não ali. Havia pessoas a olhar, gente que o conhecia. Manobrou para desencostar, rapidamente, deixando a mão à porta para fechá-la, e desceu a rua o mais depressa que podia. Tinha um fito, um objectivo muito definido que j;a o tranqüilizava e tanto que se deixou ir com um sorriso que aos poucos lhe abrandara a aflição. Só reparou na bomba de gasolina quando lhe ia a passar pela frente. Tinha um letreiro que dizia "esgotado, e o carro seguiu, sem o mínimo desvio, sem diminuir a velocidade. Não quis pensar no carro. Sorriu mais. Estava a sair da cidade, eram já os subúrbios, estava perto o sito que procurava. Meteu por uma rua em construção, virou à esquerda e à direita, até uma azinhaga deserta, entre valados. Começava a chover quando parou o automóvel. A sua ideia era simples. Consistia em sair de dentro da gabardina, torcendo os braços e o corpo, deslizando para fora dela, tal como faz a cobra quando abandona a pele. No meio de gente não se atreveria, mas, ali, sozinho, com um deserto em redor, só longe a cidade que se escondia por trás da chuva, nada mais fácil. Enganara-se, porém. A gabardina aderia ao encosto do banco, do mesmo modo que ao casaco, à camisola de lã, à camisa, à camisola anterior, à pele, aos músculos, aos ossos. Foi isso que pensou não pensando quando daí a dez minutos se retorcia dentro do carro, a chorar. Desesperado. Estava preso no carro. Por mais que se torcesse para fora, para a abertura da porta, por onde a chuva entrava emperrada por rajadas súbitas e frias, por mais que fincasse os pés na saliência alta da caixa de velocidades, não conseguia arrancar-se do assento. Com as duas mãos segurou-se ao tejadilho e tentou içar-se. Era como se quisesse levantar o mundo. Diante dos seus olhos, os limpa-vidros, que sem querer pusera em movimento no meio da agitação, oscilavam com um ruído seco, de metrônomo. De longe veio o apito da fábrica. E logo a seguir, na curva do caminho, apareceu um homem pedalando numa bicicleta, coberto com uma grande folha de plástico preto, por onde a chuva escorria como sobre a pele de uma foca. O homem que pedalava olhou curiosamente para dentro do carro e seguiu, talvez decepcionado ou intrigado, por ver um homem sozinho, e não o casal que de longe lhe parecera. O que estava a passar-se era absurdo. Nunca ninguém ficara preso dessa maneira no seu próprio carro, pelo seu próprio carro. Tinha de haver um processo qualquer de sair dali. À força não podia ser. Talvez numa garagem? Não. Como iria explicar? Chamar a polícia? E depois? Juntar-se ia gente, tudo a olhar, enquanto a autoridade evidentemente o puxaria por um braço e pediria ajuda aos presentes, e seria inútil, porque o encosto do banco docemente o prenderia a si. E viriam os jornalista, os fotógrafos, e ele seria mostrado metido no seu carro em todos os jornais do dia seguinte, cheio de vergonha como um animal tosquiado à chuva. Tinha de arranjar outra maneira. Desligou o motor e sem interromper o gesto atirou-se violentamente para fora, como quem ataca de surpresa. Nem um resultado. Feriu-se na testa e na mão esquerda, e a dor causou-lhe uma vertigem que se prolongou , enquanto uma súbita e irreprimível vontade de urinar se expandia, libertando interminável o líquido quente que vertia e escorria entre as pernas para piso do carro. Quando tudo isso sentiu, começou a chorar baixinho, num ganido, miseravelmente, e assim esteve até que um cão, vindo da chuva, veio ladrar-lhe, esquálido e sem convicção, à porta do carro. Embraiou devagar, com os movimentos pesados de um sonho de cavernas, e avançou pela azinhaga fazendo força para não pensar, para não deixar que a situação se lhe figurasse num entendimento. De um modo vago sabia que teria de procurar alguém que o ajudasse. Mas quem poderia ser? Não queria assustar a mulher, mas não restava outro remédio. Talvez ela conseguisse. Ao menos não se sentiria tão desgraçadamente sozinho. Voltou a entrar na cidade, atento aos sinais, sem movimentos bruscos no assento, como se quisesse apaziguar os poderes que o prendiam. Passavam das duas horas e o dia escurecera muito. Viu três bombas de gasolina, mas o carro não reagiu. Todas tinham o letreiro de "esgotado". À medida que penetrava na cidade, ia vendo automóveis abandonados em posições anormais, com os triângulos vermelhos colocados na janela de trás, sinal que noutras ocasiões seria de avaria, mas que significava, agora, quase sempre, falta de gasolina. Por duas vezes viu grupos de homens a empurrar automóveis para cima dos passeios , com grandes gestos de irritação, debaixo da chuva que não parara ainda. Quando enfim chegou à rua onde morava, teve de imaginar como iria chamar a mulher. Parou o carro em frente da porta, desorientado, quase à beira doutra crise nervosa. Esperou que acontecesse o milagre de a mulher descer por obra e merecimento do seu silencioso chamado de socorro. Esperou muitos minutos, até que um garoto curioso da vizinhança se aproximou e ele pôde pedir-lhe, com o argumento de uma moeda, que subisse ao terceiro andar e dissesse à senhora que lá morava que o marido estava em baixo à espera, no carro. Que viesse depressa, que era muito urgente. O rapaz foi e desceu, disse que a senhora já vinha e afastou-se a correr, com o dia ganho. A mulher descera como sempre andava em casa, nem sequer lembrara de trazer um guarda-chuva e agora estava entreportas, indecisa, desviando sem querer os olhos para um rato morto na berma do passeio, para o rato mole, de pelo arrepiado, hesitando em atravessar o passeio debaixo da chuva, um pouco irritada contra o marido que a fizera descer sem motivo, quando poderia muito bem ter subido a dizer o que queria. Mas o marido acenava de dentro do carro e ela assustou-se e correu. Deitou a mão ao puxador, precipitando-se para fugir à chuva, e quando enfim abriu a porta e viu diante do seu rosto a mão do marido aberta empurrando-a sem lhe tocar. Teimou e quis entrar, mas ele gritou-lhe que não, que era perigoso, e contou-lhe o que acontecia, enquanto ela encurvada recebia nas costas toda a chuva que caía e os cabelos se lhe desmanchavam, e o horror lhe crispava a cara toda. E viu o marido, naquele casulo quente e embaciado que o isolava do mundo, torcer-se todo no assento para sair do carro e não conseguir. Atreveu-se a agarra-lo por um braço e puxou, incrédula, e não pode também move-lo dali. E como aqui era horrível demais para ser acreditado, ficaram calados a olhar-se, até que ela pensou que o marido estava doido e fingia não poder sair. Tinha de ir chamar alguém para o tratar, para o levar aonde as loucuras se tratam. Cautelosamente, com muitas palavras, disse ao marido que esperasse um bocadinho, que ela não tardaria, ia procurar ajuda para ele sair, e assim até poderiam almoçar juntos e ele telefonaria para o escritório a dizer que estava constipado. E não iria trabalhar da parte da tarde. Quer sossegasse, o caso não tinha importância, a aver que não demora nada. Mas quando ela desapareceu na escada, ele tornou a imaginar-se rodeado de gente, o retrato nos jornais, a vergonha de se ter urinado pelas pernas abaixo, e esperou ainda uns minutos. E quando em cima a mulher fazia telefonemas para toda a parte, para a polícia, para o hospital, lutando para que acreditassem nela, e não na sua voz, dando seu nome e o do marido, a cor do carro, e a marca, e a matrícula, ele não pôde agüentar a espera e a imaginação, e ligou o motor. Quando a mulher tornou a descer, o automóvel já desaparecera e o rato escorregara da berma do passeio, enfim, e rolava na rua inclinada, arrastado pela água que corria dos algeroses. A mulher gritou, mas as pessoas tardaram a aparecer e foi muito difícil de explicar. Até o anoitecer o homem circulou pela cidade, passando por bombas esgotadas, entrando em filas de espera sem o ter decidido, ansioso por o dinheiro se lhe acabava e ele não saberia o que poderia acontecer quando não houvesse mais dinheiro e o automóvel parasse ao pé duma bomba para receber mais gasolina. E isso só não aconteceu porque todas as bombas começaram a fechar e as filas de espera que ainda se viam apenas aguardando o dia seguinte, e então o melhor era fugir de encontrar bombas ainda abertas para não ter que parar. Numa avenida muito longa e larga, quase sem outro trânsito, o carro da polícia acelerou e ultrapassou-o, e quando o ultrapassava um guarda fez-lhe sinal para que parasse. Mas ele teve outra vez medo e não parou. Ouviu atrás de si a sereia da polícia e viu, também, vindo não soube donde, um motociclista fardado quase a alcançá-lo. Mas o carro, o seu carro, deu um rondo, um arranco poderoso e saiu, de um salto, logo adiante, para o acesso duma auto-estrada. A polícia seguia-o de longe, cada vez mais longe, e quando a noite se fechou não havia sinais deles, e o automóvel rolava por outra estrada. Sentia fome. Urinara outra vez, humilhado demais para se envergonhar e delirava um pouco: humilhado, himolhado. Ia declinando sucessivamente, alterando as consoante e as vogais, num exercício in consciente e obsessivo que o defendia da realidade. Não parava porque não sabia para que iria parar. Mas, de madrugada, por duas vezes, encostou o carro a berma e tentou sair devagarinho, como se entretanto ele e o carro tivessem chegado a um acordo de pazes e fosse a altuar de tirar a prova da boa-fé de cada um. Por duas vezes falou baixinho quando o assento o segurou, por duas vezes tentou convencer o automóvel a deixa-lo sair a bem, por duas vezes num descampado nocturno e gelado, onde a chuva não parava, explodiu em gritos, em uivos, em lágrimas, em desespero cego. As feridas da cabeça e da mão voltaram a sangrar. E ele, soluçando, sufocado, gemendo como um animal aterrorizado, continuou a conduzir o carro. A deixar-se conduzir. Toda a noite viajou sem saber por onde. Atravessou povoações de que não viu o nome, percorreu longas rectas, subiu e desceu montes, fez e desfez laços e deslaços de curvas, e quando a manhã começou a nascer estava em qualquer parte, numa estrada arruinada, onde a água da chuva se juntava em charcos arrepiados à superfície. O motor roncava poderosamente , arrancando as rodas à lama, e toda a estrutura do carro vibrava, com um som inquietante. A manhã abriu por completo, sem que o sol chegasse a mostrar-se, mas a chuva parou de repente. A estrada transformava-se num simples caminho, que adiante, a cada momento, parecia que se perdia entre pedras. Onde estava o mundo? Diante dos olhos eram serras e um céu espantosamente baixo. Ele deu um grito e bateu com os punhos cerrados no volante. Foi nesse momento que viu que ponteiro do indicador da gasolina estava em cima do zero. O motor pareceu arrancar-se a si mesmo e arrastou o carro por mais vinte metros. Era outra vez estrada para lá daquele lugar, mas a gasolina acabara. A testa cobriu-se-lhe de suor frio. Uma náusea agarrou nele e sacudiu-o dos pés a cabeça, um véu cobriu-lhe por três vezes os olhos. Às apalpadelas, abriu a porta para se libertar da sufocação que aí vinha, e nesse movimento, por que fosse morrer ou porque o motor morrera, o corpo pendeu para o lado esquerdo e escorregou do carro. Escorregou um pouco mais, e ficou deitado sobre as pedras. A chuva recomeçara a cair.

O conto traz uma crítica quanto ao fato de estarmos nos tornando uma continuação da máquina.